domingo, 8 de fevereiro de 2015

Conheça o "clã dos Fernandes", presença frequente nos pódios do ciclismo nacional

Radicada em Goiânia, família superou muitas dificuldades para fazer com que as irmãs Janildes e Clemilda Fernandes chegassem a disputar cinco Olimpíadas




Eles são conhecidos como o “clã dos Fernandes”. Não é por acaso. Quatro atletas ligados pelo sangue ostentam o sobrenome que se tornou recorrente nos pódios de ciclismo feminino do Brasil. E não tem essa de tradição familiar. Os Fernandes precisaram suar muito nas estradas de Goiânia para adentrarem os meandros da modalidade. Hoje, são fortes em cima da bicicleta — com participações nas útlimas três Olimpíadas —, mas nem sempre foi assim. Filha rejeitada, atropelamento de caminhão e caso de doping. Haja capítulo para contar a história dessa família.

Tudo começou há quatro décadas, ainda em Mato Grosso, na cidade de São Félix do Araguaia. Seu Geraldo casou-se com Dona Maria em busca da realização de um sonho: ter filhos suficientes para formar um time de futebol masculino. Tudo ia bem na década de 1970. O casal já tinha cinco meninos, até que, em 1979, Clemilda nasceu. A notícia da primeira menina da família deixou o pai desgostoso. “Atrapalhou o time dele. Ficou tão bravo que queria me dar para outra pessoa cuidar”, lembra Clemilda, como quem conta um causo qualquer. A menina fica, determinou a mãe, que ainda teve outros cinco bebês.

O restante da família não estava disposto a compartilhar o sonho do pai. “Futebol? Que nada! Eu gosto é de ciclismo”, anunciou o filho mais velho, Nilton. Os mais novos foram atrás, mesmo sem a bênção do pai — que deixou a família tempos depois, por desentendimento com a mulher.

Com Maria, a história era outra. Carinho, compreensão e muita cobrança. Para ajudar os filhos e sustentar a família, fabricava vassouras e rodos. “Ela fazia, a gente vendia. Foi assim que consegui montar a minha primeira bicicleta, comprando peça por peça”, lembra Clemilda, que estreou em provas aos 16 anos.

Depois de vencer diversas corridas na capital goiana, a ciclista se aventurou por novos terrenos. Em 2001, Clemilda foi para uma competição em Santos (SP), com a prima, também ciclista, Uênia. No bolso, apenas a passagem de ida. Elas ficaram de favor com uma equipe, por não terem dinheiro para hospedagem. “A gente dividia a cama de solteiro”, lembra Uênia. Desconhecidas no cenário brasileiro, as duas dominaram as cinco etapas da competição e fizeram dobradinha no pódio. O prêmio foi maior do que o dinheiro para a passagem de volta: vaga para ambas na Seleção Brasileira.

Campeã de resistência
Antes de elas fincarem o sobrenome Fernandes na equipe do país, Janildes já o tinha feito. Veloz, a ciclista foi convocada para representar o Brasil antes da irmã. De lá para cá, a família acumula cinco participações em Olimpíadas: três de 
Janildes e duas de Clemilda. Para completar a equipe, que depois se transformou no Clube Fernandes de Ciclismo, mais uma irmã representou o país em competições. Márcia chegou a se sagrar campeã brasileira de resistência no ano passado, mas foi pega no exame antidoping com resultado positivo para EPO, em outubro. Com isso, ficará longe do clã Fernandes por dois anos.

Atropelamento
As marcas no corpo de Clemilda mostram a gravidade do acidente do qual foi vítima. Durante um treino, em março de 2013, a atleta foi atropelada por um caminhão na BR-153, que liga Belém a Brasília. O motorista do veículo fugiu do local sem prestar socorro. Dois anos depois, a atleta, que ficou à beira da morte, demonstra ter superado o ocorrido. “Agora, estou zerada, com foco no Pan-Americano de Toronto e, depois, nas Olimpíadas.”

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